Há demanda de mão de obra que entregue encomendas benfeitas Nem todo mundo nasce caprichoso, e há demanda de mão de obra que entregue encomendas benfeitasNÃO HÁ dia em que os meios de comunicação -jornais, especialmente- não dediquem espaço para comentar a atuação de instituições cuja função é pensar a formação do homem no século 21.Isso ocorre não só no Brasil. A mídia internacional também dá espaço para essa questão. Pode ser que aqui o problema seja mais agudo, o que não impede que o primeiro mundo se preocupe da mesma forma.Hoje mesmo li uma longa matéria sobre uma milionária dotação feita em um país do Oriente Médio, cujo objetivo é tão simplesmente a decantada "educação".Nessa época de transição, é difícil vislumbrar o homem que queremos formar, aquele que venha a responder às necessidades de hoje e de amanhã. Quais são essas necessidades? Que aptidões e conteúdos são necessários e mesmo, por que não, indispensáveis para o homem do futuro?Lá pelos meados do século 20, durante a Segunda Grande Guerra, o Ocidente sacou que a criatividade se tornava, cada vez mais, algo não só desejável, mas necessário.Foram desenvolvidas tecnologias de sala de aula para incentivar a prontidão para inovação, a saber, a criatividade. Quando uma sociedade precisa de mais pessoas criativas do que aquelas que nascem e se criam criativas naturalmente, há que gerar tecnologia para desenvolver essa aptidão.Diríamos que as técnicas de incentivo para treinar inovação já fazem parte do pensar da educação escolar.Anteriormente, a ênfase estava na ordem, na aplicação, no fazer a tarefa benfeita do começo ao fim.Nos últimos sessenta anos, essa parte do treinamento dos jovens caiu em desuso. O "fazer benfeito, direito, caprichado" ficou como um anacronismo.Só que nem todo mundo nasce caprichoso, da mesma forma que não nasce criativo.E há demanda de mão de obra capaz de entregar encomendas benfeitas.Mesmo a criatividade precisa ser vista e revista, para que os encaixes suaves ocorram. O plugue precisa acertar-se com a tomada. A bainha da roupa precisa ser benfeita. A receita de bolo demanda atenção às medidas.Mais ou menos dá curto-circuito; costura torta faz roupa torta, bolo solado nenhuma dona de casa ofereceria às visitas.Rodeados por e dependentes de eletroeletrônicos, precisamos atentar para a precisão. Senão o som não sai, a luz apaga, o liquidificador espirra, o fogão não acende etc.Esse mundo mecânico/ elétrico/eletrônico demanda, cada vez mais, mão de obra viciada em precisão, atenção e capricho.Espero que a quantidade de cabeças pensantes, tendo disponíveis as imensas dotações, consiga não só elaborar grandes teorias, mas também jeitos de fazer e de transmitir esse saber miúdo. (Esses detalhes não encantam as grandes cabeças, pois eles são a alma da tecnologia.)Fazer, rever, corrigir, verificar de novo daqui a pouco, o mundo clama por isso. Na fábrica, na oficina, nos escritórios de projeto, entre operários e doutores.ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)