Com as redes sociais, o jovem pode se expressar de maneira a afirmar melhor sua identidade, já que não é obrigado a produzir apenas os que o professor determina em sala de aula

Desirèe Luíse

   
Os jovens nunca escreveram e se expressaram tanto como atualmente. A conclusão é de especialistas em linguística e educadores presentes no debate “A língua praticada nas redes sociais e a construção da identidade”, que aconteceu no sábado (14/8), na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Com as redes sociais, o jovem pode se expressar de maneira a afirmar melhor sua identidade, já que não é obrigado a produzir apenas o que o professor determina em sala de aula. “O fato de escrever mais é importante para percebermos a identidade do jovem, o que está pensando”, disse a jornalista da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), Ciça Lessa, que mediou o debate.

“A língua é parte constitutiva da identidade. Um blog tem características de um diário pessoal, mas não é para ficar na gaveta. Tem um caráter de informação de acordo com quem escreve”, afirmou a especialista em estilística e professora, Guaraciaba Micheletti. “No blog de uma adolescente, toda a subjetividade dela está marcada ali e quem comenta nesse blog também tem o mesmo perfil. Quando são obrigados a fazer seminários na escola, eles se expressam de forma diferente”, completou.

Os debatedores ainda afirmaram que são falsos os temores de que a Internet e as novas redes sociais causaram a morte da língua culta. “Ouvimos que o português vai muito mal, que está em decadência, e que o ‘internetês’ é a prova disso. Mas antigamente escrevia-se em um pergaminho de couro. Como era caro, para aproveitar aquele espaço pequeno, eram utilizados vários sinais. Na Internet, o espaço também é pequeno. As abreviações e símbolos voltaram”, analisou o linguista Ataliba Castilho.

De acordo com o professor titular de português da Universidade Federal do Paraná, Carlos Alberto Faraco, a língua se transformar é algo natural. “Os falantes ajustam às necessidades do seu uso. Na Internet, não tem e nem poderia ter as mesmas características de outras linguagens. É preciso abreviar para dizer muito em pouco tempo”, afirma.

Professores e pais se assustam com as novas linguagens, mas, para Faraco, não há dificuldades para operar com vários tipos de escritas. “O chat e o blog têm características da fala, mas não destroem a linguagem culta”.


Escola x linguagem

Os alunos precisam saber que há a norma culta e atuar com ela, de acordo com a professora Guaraciaba, o que não exclui as linguagens utilizadas na Internet. Para Faraco, os educadores devem atuar em constante ‘tensão’, “porque o jovem precisa perceber que pertencemos a múltiplas tribos. Não podemos cair no monogenismo”.

No entanto, a maioria das escolas brasileiras não tem trabalhado com essa diversidade de escritas. “Progressivamente está surgindo um olhar para as redes sociais. Isso, porque os educadores são de diferentes gerações. Aqueles que estão próximos das práticas novas, certamente fazem esforço para aproveitá-las. Agora, quem não está, não faz o mesmo”, analisou Faraco.

Os especialistas concordaram que a escola está diante de uma encruzilhada, porque tem sofrido uma pressão social grande da difusão do conhecimento, da circulação da informação e da prática da escrita. Ao mesmo tempo, o sistema escolar ainda não tem recursos e meios para se adaptar integralmente, respondendo à situação.

A 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontece até domingo (22/8), no Pavilhão de Exposições do Anhembi, localizado na Avenida Olavo Fontoura, 1.209, Santana, São Paulo (SP). A entrada para o público em geral custa R$ 10. Estudantes pagam R$ 5.
  Fonte: Portal Aprendiz 

COMENTÁRIOS